Introdução
Nos últimos anos, observa-se um aumento significativo de relatos de pessoas que vivenciam relações marcadas por exploração emocional, manipulação afetiva e sofrimento psicológico prolongado. Esse fenômeno, popularmente denominado de estelionato emocional, tem ganhado espaço tanto no debate jurídico quanto na Psicologia, especialmente por seus impactos profundos na saúde mental das vítimas. Embora o termo ainda não esteja formalmente consolidado como categoria diagnóstica nos manuais psiquiátricos, ele descreve com precisão um conjunto de comportamentos abusivos presentes em determinados relacionamentos, nos quais um indivíduo se beneficia emocional, psicológica ou financeiramente do outro por meio de engano, sedução e manipulação.
O estelionato emocional frequentemente se manifesta dentro de relacionamentos abusivos, nos quais há desequilíbrio de poder, controle, dependência emocional e violação sistemática dos limites do parceiro. Tais relações não se configuram apenas como conflitos comuns da vida afetiva, mas como padrões reiterados de abuso que comprometem a autonomia, a autoestima e a identidade da vítima. Conforme aponta Hirigoyen (2019), a violência psicológica nas relações íntimas é silenciosa, progressiva e, muitas vezes, invisível, o que dificulta seu reconhecimento e enfrentamento.
Diante desse cenário, este artigo tem como objetivo analisar o estelionato emocional enquanto prática relacional abusiva, discutindo suas características, mecanismos psicológicos envolvidos, consequências para a saúde mental e a importância da psicoterapia no processo de conscientização e recuperação das vítimas. A abordagem adotada fundamenta-se em estudos da Psicologia Clínica, da Psicologia Social e em contribuições de autores que investigam relações abusivas, dependência emocional e traços de personalidade manipuladores.
Estelionato Emocional: Conceito e Características Psicológicas
O estelionato emocional pode ser compreendido como uma forma de exploração afetiva na qual um indivíduo, de maneira consciente ou parcialmente consciente, utiliza estratégias de sedução, vitimização, promessa de vínculo ou compromisso para obter vantagens emocionais, sexuais, sociais ou financeiras do outro. Diferentemente de relações baseadas na reciprocidade, o vínculo estabelecido é assimétrico, pois apenas uma das partes se beneficia de forma consistente da relação.
Do ponto de vista psicológico, esse tipo de dinâmica está frequentemente associado a traços de personalidade manipuladores, como os observados em perfis narcisistas ou antissociais, embora seja fundamental destacar que nem todo comportamento abusivo decorre de um transtorno de personalidade formalmente diagnosticado. Segundo American Psychiatric Association (2022), traços como falta de empatia, necessidade excessiva de admiração e exploração interpessoal podem aparecer em diferentes níveis de funcionamento da personalidade, sem que haja, necessariamente, um diagnóstico clínico.
O estelionatário emocional costuma apresentar discursos envolventes, promessas intensas e rápidas de amor, além de uma capacidade acentuada de identificar fragilidades emocionais no parceiro. Esse processo, conhecido como love bombing, cria uma falsa sensação de conexão profunda, que posteriormente é substituída por desvalorização, afastamento emocional e controle psicológico. Conforme descreve Forward (2011), a manipulação emocional se sustenta por meio de culpa, medo e obrigação, elementos centrais para manter a vítima presa à relação.
Relacionamentos Abusivos e Dinâmicas de Poder
Relacionamentos abusivos caracterizam-se por padrões repetitivos de comportamento que visam controlar, dominar ou subjugar o parceiro. Diferentemente de conflitos pontuais, o abuso psicológico estabelece uma estrutura relacional em que uma das partes detém poder simbólico e emocional sobre a outra. Esse poder se manifesta por meio de humilhações veladas, invalidação dos sentimentos, chantagem emocional, ameaças de abandono e alternância entre afeto e rejeição.
Segundo Walker (2016), o ciclo da violência emocional envolve fases de tensão, explosão e reconciliação, criando um vínculo traumático que dificulta o rompimento da relação. No estelionato emocional, esse ciclo é particularmente eficaz, pois o agressor oferece pequenas doses de afeto como reforço intermitente, mecanismo amplamente estudado na Psicologia Comportamental e conhecido por gerar forte dependência emocional.
A vítima, por sua vez, tende a racionalizar o comportamento abusivo, atribuindo a si mesma a responsabilidade pelos conflitos e acreditando que, com mais esforço, amor ou compreensão, conseguirá restaurar a relação idealizada do início. Essa dinâmica é agravada quando existem fatores como baixa autoestima, histórico de abandono, traumas prévios ou crenças disfuncionais sobre amor e relacionamento, conforme apontam Beck e Alford (2011).
Impactos do Estelionato Emocional na Saúde Mental
As consequências psicológicas do estelionato emocional são profundas e, muitas vezes, duradouras. Estudos indicam que vítimas de relacionamentos abusivos apresentam maior incidência de transtornos de ansiedade, depressão, sintomas de estresse pós-traumático, distorções cognitivas e dificuldades de estabelecer vínculos saudáveis no futuro (HERMAN, 2015).
A vivência prolongada de invalidação emocional pode levar à fragmentação da identidade, fenômeno no qual o indivíduo passa a duvidar de suas próprias percepções, sentimentos e julgamentos. Esse estado, conhecido como gaslighting, é uma das ferramentas mais destrutivas utilizadas em relações de estelionato emocional, pois compromete a capacidade da vítima de confiar em si mesma (HIRIGOYEN, 2019).
Além disso, não são raros os casos em que o sofrimento emocional se manifesta por meio de sintomas psicossomáticos, isolamento social, queda no rendimento profissional e comprometimento da autonomia emocional. A internalização da culpa e da vergonha dificulta a busca por ajuda, prolongando o ciclo de abuso e sofrimento.
A Psicoterapia como Caminho de Reconstrução
A psicoterapia desempenha papel central no processo de conscientização, fortalecimento emocional e reconstrução subjetiva das vítimas de estelionato emocional e relacionamentos abusivos. O espaço terapêutico possibilita a ressignificação das experiências vividas, a identificação de padrões disfuncionais e o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento emocional mais saudáveis.
Abordagens como a Terapia Cognitivo-Comportamental demonstram eficácia na reestruturação de crenças disfuncionais relacionadas ao amor, ao valor pessoal e à responsabilidade emocional, auxiliando o paciente a romper com vínculos abusivos e prevenir recaídas em padrões semelhantes (BECK; ALFORD, 2011). Da mesma forma, abordagens focadas em trauma enfatizam a validação da dor emocional e a reconstrução do senso de segurança interna, conforme proposto por Herman (2015).
O acompanhamento psicológico também contribui para o fortalecimento da autonomia emocional, da autoestima e da capacidade de estabelecer limites claros, aspectos essenciais para a construção de relações futuras baseadas no respeito, reciprocidade e autenticidade.
Conclusão
O estelionato emocional configura-se como uma forma grave de violência psicológica, inserida no contexto mais amplo dos relacionamentos abusivos. Embora muitas vezes invisibilizado ou romantizado, esse tipo de dinâmica relacional gera impactos significativos na saúde mental das vítimas, comprometendo sua identidade, autoestima e capacidade de confiar em si mesmas e nos outros.
Compreender os mecanismos psicológicos envolvidos no estelionato emocional é fundamental não apenas para a prevenção, mas também para o desenvolvimento de intervenções clínicas eficazes. A Psicologia, enquanto ciência e prática profissional, tem papel essencial na identificação desses padrões, na validação do sofrimento das vítimas e na promoção de processos terapêuticos que possibilitem reconstrução emocional e autonomia afetiva.
Por fim, é imprescindível ampliar o debate social e científico sobre o tema, rompendo com narrativas que culpabilizam a vítima e naturalizam o abuso. Reconhecer o estelionato emocional como uma forma legítima de violência psicológica é um passo fundamental para a promoção de relações mais saudáveis, éticas e humanas.
Valdivino Alves de Sousa
Psicólogo Clínico – CRP 06/198683
Atendimento psicológico online para adultos – Brasil
Site: https://www.psicologovaldivinosousa.com.br
Referências
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5-TR: Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. 5. ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2022.
BECK, J. S.; ALFORD, B. A. Depression: Causes and Treatment. 2. ed. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 2011.
FORWARD, S. Emotional Blackmail. New York: HarperCollins, 2011.
HERMAN, J. L. Trauma and Recovery. New York: Basic Books, 2015.
HIRIGOYEN, M. F. Assédio Moral: A Violência Perversa no Cotidiano. 17. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2019.
WALKER, L. E. The Battered Woman Syndrome. 4. ed. New York: Springer Publishing, 2016.

Nenhum comentário:
Postar um comentário